O barulho do trem



Ainda reconheço o barulho do trem da casa da vó… o apito sonoro vinha primeiro que o velho trem preto. E logo a alegria me enchia naquele lugar escuro de terra fina e branca como o mar… mas que era sertão.

A varanda da casa da avó são as molduras desse quadro que ficaram na memória de infância do final de tarde mais esperado que eu vivi durante alguns dias. Sob a luz das lamparinas o céu era lindo e estrelado. o barulho dos bichinhos enchia o lugar de paz e o vento fresco apaziguava o calor do sertão

E sobre aquela avó, não sabia muito sobre aquela mulher. Só dava para ver que tinha que manter o respeito e o espaço dela. Não entrar no que não se conhecia e poder admirar a força e garra de quem viveu só.

A casa era pequena e modesta, mas tinha tudo que precisava. A mulher branca de olho azul, gorda e forte, sapateira e valente. Dava um pouco de medo por não conhecer.

Ela pelava o porco, cortava o couro, fazia o sapato na forma de ferro que pesava muito, ligava as lamparinas, sentava e contava casos, não tinha medo de se mostrar forte e determinada e não dependia de ninguém.

A mulher branca e brava, fazia comida pesava e saborosa. Sentava para comer e logo se colocava a trabalhar de novo. Era algo para se admirar.

Descia o quintal, puxava as plantas da caatinga para alimentar os bichos. Refazia a cerca para não perder os pintos e as galinhas. Limpava as carnes. Levantava os ferros, os ossos e fazia tudo se transformar em banha, em comida e em utilidade.

Nunca a conheci direito. Mas via o seu olhar sem medo e sem dúvidas de que conseguiria enfrentar a vida, mulher forte que combatia até o que se arrependia.

Acabou enfrentando o filhos, a cidade grande, a doença de “diabetes” e só se dobrou a muito custo.Enfrentou tudo e descansou. Deixou o que tinha e nada mais e sem culpas.

A imagem marcou a minha infância e serviu para eu entender um pouco as coisas que vinham do meu pai foi a mãe forte que não se aproximou para explicar as coisas.

Vida dura. Vida sem sentida. Vida deixada. Vida em pedaços. Força. Solidão. Verdades e mentiras deixadas pelo acaso da vida. E dor. Dor que passou. Feriu. Matou.

Onde está a culpa…. não tem culpa onde não há a quem culpar.

Nem há o que explicar para quem não está mais no processo.

A vida que vai continuar…se não estiver curada, como será? Será como der e como vier e mesmo que a gente veja a cara e a coragem externa a gente não vê a entrega da alma lavada ou ferida, da vida descontinuada e da emoção escondida da vida que ficou.

Da vida que foi aleijada ou mesmo transformada. A gente não vê nada. só a força que imputou. Essa força pode ser boa, pode ser ruim, pode consertar ou pode estragar. Tem que parar para investigar. E daí sim, um ciclo começar.

Eu parei e investiguei, limpei a alma. Sarei. Transformei. Falhei mas não me desanimei. Acreditei e decidi por amar.

De tudo ficou o quadro com o trem e o apito, a lembrança da avó e da mulher que enfrentou o seu destino e deixou as marcas nas gerações que criou.


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